As análises sobre o que vai ao câmbio do par real-dólar têm sido, em regra, pueris. Há duas correntes irreconciliáveis
Foi o ministro Guido Mantega declarar que o governo vai “comprar, comprar” todos os dólares que chegam ao país para turvar o clima no mercado financeiro sobre a estratégica e mal resolvida questão cambial. O temor do governo é que o real passe por outra onda de valorização. O risco é o mercado peitar a aposta.
No mercado cambial, mais que nos demais, como o de ações, normal é o governo fazer antes o que cogita e só explicar depois por que fez. Mercado com forte concentração de operações especulativas em escala global, além de muito influenciado pelos contratos de venda ou compra de divisas a futuro, qualquer ruído soa como estrondo.
E mais aqui que em outras praças, já que as regras regulatórias reprimem o mercado à vista, em que há troca física de reais por dólares e outras moedas, e deixam solto o mercado futuro, surgindo daí distorções mal compreendidas até pelos economistas.
As análises sobre o que vai ao câmbio do par real-dólar têm sido, em regra, pueris. Há duas correntes irreconciliáveis.
Uma exalta as virtudes da economia em relação aos países ricos em crise. Ela advoga que o real forte reflete a descoberta do Brasil pelos investidores estrangeiros. Além disso, a desvalorização do dólar é um problema global, que atinge as moedas de países em que o câmbio é flutuante, como aqui - e não fixo, como na Rússia, ou flutuante no papel e, na verdade, colado ao dólar, como na China.
Conclui-se por aí que não há o que fazer, exceto atacar problemas estruturais de custos que oneram as exportações brasileiras, como impostos e logística deficiente. A superação dessas dificuldades equivale à depreciação do real, e sem impacto inflacionário.
A outra corrente, com a qual o ministro Mantega parece concordar, resiste a seguir o conselho da então ministra do Turismo, Marta Suplicy, durante o caos aéreo: relaxar e gozar. A questão é o que fazer além do que já fazem o Banco Central e Tesouro Nacional com as compras maciças de dólares no mercado sem provocar inversão de tendência de sua cotação no mercado brasileiro.
Ambos os juízos estão corretos. O Brasil está no radar do capital estrangeiro, o de raiz, das multinacionais, que entram para ficar, e o financeiro, mais volátil, sobretudo o aplicado nos títulos da dívida pública e em ações. Entre todas as modalidades dos dólares que chegam, este é o mais pernicioso. Ao menor sinal de risco, cai fora, podendo detonar o tal “efeito manada” do capital.
Mas é com o hot money que o país tem zerado nos últimos meses os déficits em conta corrente, já que a fatia do investimento direto estrangeiro das multinacionais evolui, até pelo marasmo global, abaixo das necessidades de financiamento externo. Que vão crescer quanto mais o consumo interno e o ciclo de investimentos demandem importações, encolhendo o superávit da balança comercial.
Em princípio, os déficits externos, que explicitam a necessidade de financiamentos para fechar o balanço de pagamentos do país, não deveriam ser um resultado negativo, se implicassem desvalorização do real. É o que se espera do câmbio flutuante: depreciação, se um país começa a depender de funding externo para fechar suas contas.
Mas o Brasil tem reservas de US$ 268 bilhões com as quais passou sem grande aperto pelo pior da crise global. Como seguro contra os movimentos de aversão ao risco, elas atenuam a queda do real.
Então o real não se deprecia, mesmo diante dos déficits externos e das intervenções do BC enxugando as divisas resultantes do fluxo liquido de capitais. Ao contrário, tal movimento freia sua queda.
Se no Brasil os juros dos papéis do Tesouro, sem risco e líquidos como dinheiro na mão, são bem maiores que nos EUA, na zona do euro e no Japão, onde a liquidez aflora como água na torneira, e a taxa de câmbio se expõe à influência do mercado futuro, muito maior que o à vista, tudo vira um negócio rentável.
Bancos e fundos usam seu crédito externo para entrar com dólares, vendê-los ao BC, aplicar os reais a juros e saborear a valorização entre os intervalos de entrega das divisas e liquidação da operação lá fora.
Sem trancar este canal ou reduzir a assimetria dos juros, não há o que fazer.
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