ARTIGO
Meirelles, o espírito animal e o otimismo
Por Vitor Paiva Pimentel
Em palestra esta semana no Rio de Janeiro, Henrique Meirelles, agora reconfirmado como presidente do Banco Central até o final deste governo, abandonando suas pretensões políticas imediatas, fez diversas considerações interessantes sobre momento do Brasil, a previsibilidade da economia e seu reflexo nas taxas de retorno dos investimentos.
Por conta de sua longa experiência no exterior, que o credenciou como âncora de credibilidade e seriedade para o governo desconhecido que se iniciava, observou que qualquer projeto de investimento no Brasil tinha de ter uma taxa interna de retorno mais alta do que de países semelhantes, e a única justificativa era a “economia pouco previsível”.
Em imagem divertida, Meirelles disse que investir no Brasil, até bem pouco tempo, compreendia o conceito do risco semelhante ao de abrir um restaurante da moda para jovens; ao acertar, ganha-se muito dinheiro, mas a probabilidade é baixa. Mesmo sendo bem sucedido, o prazo para o projeto se pagar é muito curto, pois a moda muda muito rapidamente.
Meirelles relatou uma viagem ao Peru, ainda não era presidente do BACEN, quando teve a oportunidade de perguntar, a uma diretora de multinacional, que investia naquele país, qual o prazo da projeção do investimento, ouvindo “30 anos” como resposta, seguida de uma afirmação de que a mesma empresa tinha um investimento no Brasil com o prazo de projeção de 5 anos.
Nesse sentido, o Ministro equiparou sustentabilidade do investimento à previsibilidade da economia. Segundo ele, muitos economistas interpretam equivocadamente o conceito de animal spirit do empresário, a expressão cunhada por John Maynard Keynes a respeito do instinto de busca de lucro, como não sendo racional.
A passagem de Keynes sobre o espírito animal está em seu livro mais importante, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, segundo a qual “grande parte de nossas ações positivas derivam de um otimismo espontâneo mais do que expectativas matemáticas [...] muito provavelmente, algumas de nossas decisões, cujos resultados virão no futuro, só podem ser atribuídas ao espírito animal, um impulso espontâneo de agir em lugar da inércia e não de uma estimativa ponderada de benefícios multiplicada pelas probabilidades”. O investimento privado, variável central para o crescimento da economia, seria um movimento não racional dos empresários para alguns interpretes desta passagem.
Meirelles não escapou de defender politicamente a sua gestão, afirmando ser tangível o benefício da previsibilidade da economia brasileira: a previsibilidade leva a expansão do crédito às pessoas e às empresas e a um menor custo de financiamento da dívida pública; a economia cresce e proporciona ao governo a liberdade para fazer programas de distribuição de renda. Com isso, a população passa a ver a estabilidade dos preços como um ativo. Além disso, a previsibilidade da economia melhora as perspectivas para o investimento, traduzindo-se em crescimento econômico.
Segundo Meirelles, vivemos não só uma reversão do ciclo econômico negativo, mas da pior crise econômico-financeira desde 1929; e o Brasil se reergueu rápido da crise, em função da ação veloz de seus governantes, e a política monetária teve papel importante nesse momento. A fuga de capitais que o Brasil experimentou durante a crise de 2008-2009 foi equivalente à de 1929.
Meirelles lembrou ainda que teve a oportunidade de visitar o museu de um banco inglês muito antigo, que negociava com o Brasil desde 1822, onde foi apresentado ao documento original pelo qual o Brasil assumiu a dívida de Portugal com os ingleses em troca da independência política. Não fomos nós que fizemos essa dívida, argumentou, e não tínhamos, à época, capacidade para gerar divisas para pagá-la. Segundo Meirelles, hoje nós temos, pois o Brasil é credor externo líquido.
O Brasil tem uma taxa de desemprego de 9%, menor que a dos EUA e da zona do euro. O benefício da estabilidade de preços é, mais uma vez, tangível para a população, com a possibilidade de sustentação do emprego no momento da crise.
Conseguiu-se restringir a crise a alguns poucos setores industriais, e hoje se observa otimismo em alta, e disseminado por todos os setores da economia, e não uma média entre setores muito otimistas e setores pessimistas.
Há alguns anos, diz Meirelles, estaríamos ainda discutindo a crise, ou como dela escapar, enquanto o que se discute hoje no Brasil é o futuro. Nosso problema crucial é a infra-estrutura, tanto física quanto humana, e os desafios que se impõem a todos os níveis do setor público e ao setor privado.
Ao encerrar seu depoimento, buscou a conciliação, afirmando que devemos buscar reformas que propiciem um arranjo institucional em que a fiscalização seja efetiva, permitindo a continuidade dos projetos de maneira responsável. O momento é de pensar no futuro, com otimismo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
obrigado por sua participação retornarei em breve