Acordo
europeu só ganhou tempo antes de nova rodada de pânico
Revista
britânica The Economist analisa os resultados da cimeira europeia e diz que não
se trata da ‘grande bazuca’, mas que, pelo contrário, pode empurrar a zona euro
para a catástrofe.
A
revista britânica The Economist considera, na sua análise ao acordo da
madrugada de 27 de Outubro, que não se trata da “grande bazuca” que todos
esperavam, a arma que resolveria finalmente a crise financeira da zona euro.
“Afinal”,
diz a revista, “esta foi a terceira ‘solução abrangente’ aprovada pela zona
euro apenas este ano. A cada esforço ‘sem precedentes’, o problema só piorou.
Infelizmente, este último acordo promete não ser mais duradouro. Na melhor das
hipóteses, servirá para ganhar tempo antes da nova rodada de pânico. Na pior,
pode empurrar a zona euro para a catástrofe.”
Zona
euro “despertou da mentira de que a Grécia poderia pagar dívida”
Analisando
as decisões, e referindo-se à aceitação por parte dos credores de uma redução
de metade da dívida grega, a revista afirma que a zona euro “despertou da
mentira de que a Grécia poderia um dia pagar as suas dívidas”. Uma nova
avaliação supostamente confidencial das perspectivas de Grécia, lembra a The
Economist, feita no início deste mês, informava que a austeridade empurrou o
país para uma recessão superior à esperada – este ano prevê-se uma contracção
de 5.5 %, e o país não voltará a crescer até 2013. O resultado é que a dívida
provavelmente subirá para 186% do PNB, em vez dos 160% previstos três meses
antes, mesmo com uma redução de 21% da dívida acordada em Julho. “Se a zona
euro e o FMI queriam evitar emprestar mais milhares de milhões à Grécia, os
credores privados teriam de assumir perdas muito maiores”, afirma o artigo.
Depois
de muitas negociações em que os bancos não queriam aceitar a proposta,
finalmente chegou-se a um acordo que envolverá a troca de títulos da dívida por
outros com um corte para metade do seu valor de face, sendo que os detalhes
desta operação ainda não estão acertados. A revista diz que, mesmo assim,
fala-se que a Grécia vai precisar de um novo empréstimo de 130 mil milhões, em
vez dos 109 mil milhões previstos em Julho.
A
operação de troca de títulos é apelidada de “voluntária”, mas não está ainda
claro se a International Swaps and Derivatives Association vai concordar. Se
ela considerar que houve um “evento de crédito”, serão então acionados os
credit-default swaps (CDSs), que são contratos de seguro contra o não-pagamento
de títulos de dívida soberana. “Isto é algo que os governos e o BCE estão
determinados a evitar, temendo que daí decorra uma catástrofe financeira
semelhante à da falência do Lehman Brothers em 2008. Ninguém sabe na posse de
quem estão esses CDS, e “não é preciso ser-se paranoico para se estar
aterrorizado”, diz o artigo, citando uma fonte envolvida nas negociações.
Bancos
alemães e britânicos saem a ganhar
Quanto
à recapitalização dos bancos, o artigo observa que o critério utilizado para
esta operação, o de recalcular o valor dos títulos detidos pelos bancos a
preços de mercado, significará perdas para os títulos italianos e espanhóis e
ganhos para os alemães e britânicos, o que significa que o maior esforço de
recapitalização recai sobre os bancos dos primeiros dois países, enquanto que
os bancos alemães e britânicos pouco terão de fazer.
Além
disso, “o critério é muito bom para a França, o que é suspeito”, diz a revista,
observando que os bancos franceses têm sido castigados pelos mercados, o que
levou Paris ao alarme diante da possibilidade de perder o seu ‘rating’ AAA. No
total, a recapitalização terá de ser de 106 mil milhões de euros, o que,
segundo a revista, é a mais baixa das estimativas, o que pode ser um erro,
devido à desaceleração da economia europeia.
O
artigo considera ainda que o calendário do plano, que dá nove meses aos bancos
para se recapitalizarem, é um erro enorme. O objectivo seria dar tempo aos
bancos para venderem acções e cortarem bónus e dividendos. Mas poucos
investidores estão dispostos a comprar acções de bancos, nota o artigo, por
mais baratas que estejam. Resultado: o ónus da recapitalização vai ficar em
grande parte sobre as costas dos governos nacionais e sobre o FEEF
Ora
ninguém sabe muito bem como é que o FEEF vai crescer de forma a garantir
eventuais problemas mais graves com as dívidas de Espanha e Itália, que só no
próximo ano têm de rolar um bilião de euros de dívida. Como fortalecer o Fundo
sem injectar dinheiro dos contribuintes – coisa que a Alemanha se nega a fazer?
A revista aponta que a solução óbvia é promover a alavancagem do FEEF, citando
esquemas complexos que sempre se podem fazer, mas que significam também riscos
suplementares: “a alavancagem pode ser um mecanismo que transmita o pânico e
enfraqueça os países, acima de tudo a França”, adverte a The Economist.
Solução
chinesa tem custos políticos
A
revista resume assim a situação: “Os tesouros nacionais não têm dinheiro de
sobra suficiente para garantir dívidas gigantescas e manter os seus próprios
‘ratings’. Mesmo a poderosa Alemanha não pode suportar sozinha toda a zona
euro”.
As
esperanças de que a China queira investir no Fundo levantam questões políticas:
a zona euro quer ficar tão obviamente dependente de Pequim? Isso terá um preço:
os chineses vão querer mais direitos de voto no FMI e o estatuto de economia de
mercado, aponta um diplomata ouvido pela revista. Este estatuto tornaria mais
difícil impor taxas anti-dumping aos baratos produtos chineses.
A
outra solução seria usar a capacidade de imprimir dinheiro do BCE, mas a
Alemanha tem pavor de que esta medida trouxesse inflação.
Seja
como for, diz a revistas, muitos esperam que o BCE não deixará de comprar
títulos, citando um economista do Citygroup que afirma que a proibição de que o
BCE empreste diretamente aos governos é pura idiotice. “É isso que os bancos
centrais fazem”.
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