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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Acordo europeu só ganhou tempo antes de nova rodada de pânico diz Revista britânica The Economist


Acordo europeu só ganhou tempo antes de nova rodada de pânico
Revista britânica The Economist analisa os resultados da cimeira europeia e diz que não se trata da ‘grande bazuca’, mas que, pelo contrário, pode empurrar a zona euro para a catástrofe.
A revista britânica The Economist considera, na sua análise ao acordo da madrugada de 27 de Outubro, que não se trata da “grande bazuca” que todos esperavam, a arma que resolveria finalmente a crise financeira da zona euro.
“Afinal”, diz a revista, “esta foi a terceira ‘solução abrangente’ aprovada pela zona euro apenas este ano. A cada esforço ‘sem precedentes’, o problema só piorou. Infelizmente, este último acordo promete não ser mais duradouro. Na melhor das hipóteses, servirá para ganhar tempo antes da nova rodada de pânico. Na pior, pode empurrar a zona euro para a catástrofe.”
Zona euro “despertou da mentira de que a Grécia poderia pagar dívida”
Analisando as decisões, e referindo-se à aceitação por parte dos credores de uma redução de metade da dívida grega, a revista afirma que a zona euro “despertou da mentira de que a Grécia poderia um dia pagar as suas dívidas”. Uma nova avaliação supostamente confidencial das perspectivas de Grécia, lembra a The Economist, feita no início deste mês, informava que a austeridade empurrou o país para uma recessão superior à esperada – este ano prevê-se uma contracção de 5.5 %, e o país não voltará a crescer até 2013. O resultado é que a dívida provavelmente subirá para 186% do PNB, em vez dos 160% previstos três meses antes, mesmo com uma redução de 21% da dívida acordada em Julho. “Se a zona euro e o FMI queriam evitar emprestar mais milhares de milhões à Grécia, os credores privados teriam de assumir perdas muito maiores”, afirma o artigo.
Depois de muitas negociações em que os bancos não queriam aceitar a proposta, finalmente chegou-se a um acordo que envolverá a troca de títulos da dívida por outros com um corte para metade do seu valor de face, sendo que os detalhes desta operação ainda não estão acertados. A revista diz que, mesmo assim, fala-se que a Grécia vai precisar de um novo empréstimo de 130 mil milhões, em vez dos 109 mil milhões previstos em Julho.
A operação de troca de títulos é apelidada de “voluntária”, mas não está ainda claro se a International Swaps and Derivatives Association vai concordar. Se ela considerar que houve um “evento de crédito”, serão então acionados os credit-default swaps (CDSs), que são contratos de seguro contra o não-pagamento de títulos de dívida soberana. “Isto é algo que os governos e o BCE estão determinados a evitar, temendo que daí decorra uma catástrofe financeira semelhante à da falência do Lehman Brothers em 2008. Ninguém sabe na posse de quem estão esses CDS, e “não é preciso ser-se paranoico para se estar aterrorizado”, diz o artigo, citando uma fonte envolvida nas negociações.
Bancos alemães e britânicos saem a ganhar
Quanto à recapitalização dos bancos, o artigo observa que o critério utilizado para esta operação, o de recalcular o valor dos títulos detidos pelos bancos a preços de mercado, significará perdas para os títulos italianos e espanhóis e ganhos para os alemães e britânicos, o que significa que o maior esforço de recapitalização recai sobre os bancos dos primeiros dois países, enquanto que os bancos alemães e britânicos pouco terão de fazer.
Além disso, “o critério é muito bom para a França, o que é suspeito”, diz a revista, observando que os bancos franceses têm sido castigados pelos mercados, o que levou Paris ao alarme diante da possibilidade de perder o seu ‘rating’ AAA. No total, a recapitalização terá de ser de 106 mil milhões de euros, o que, segundo a revista, é a mais baixa das estimativas, o que pode ser um erro, devido à desaceleração da economia europeia.
O artigo considera ainda que o calendário do plano, que dá nove meses aos bancos para se recapitalizarem, é um erro enorme. O objectivo seria dar tempo aos bancos para venderem acções e cortarem bónus e dividendos. Mas poucos investidores estão dispostos a comprar acções de bancos, nota o artigo, por mais baratas que estejam. Resultado: o ónus da recapitalização vai ficar em grande parte sobre as costas dos governos nacionais e sobre o FEEF
Ora ninguém sabe muito bem como é que o FEEF vai crescer de forma a garantir eventuais problemas mais graves com as dívidas de Espanha e Itália, que só no próximo ano têm de rolar um bilião de euros de dívida. Como fortalecer o Fundo sem injectar dinheiro dos contribuintes – coisa que a Alemanha se nega a fazer? A revista aponta que a solução óbvia é promover a alavancagem do FEEF, citando esquemas complexos que sempre se podem fazer, mas que significam também riscos suplementares: “a alavancagem pode ser um mecanismo que transmita o pânico e enfraqueça os países, acima de tudo a França”, adverte a The Economist.
Solução chinesa tem custos políticos
A revista resume assim a situação: “Os tesouros nacionais não têm dinheiro de sobra suficiente para garantir dívidas gigantescas e manter os seus próprios ‘ratings’. Mesmo a poderosa Alemanha não pode suportar sozinha toda a zona euro”.
As esperanças de que a China queira investir no Fundo levantam questões políticas: a zona euro quer ficar tão obviamente dependente de Pequim? Isso terá um preço: os chineses vão querer mais direitos de voto no FMI e o estatuto de economia de mercado, aponta um diplomata ouvido pela revista. Este estatuto tornaria mais difícil impor taxas anti-dumping aos baratos produtos chineses.
A outra solução seria usar a capacidade de imprimir dinheiro do BCE, mas a Alemanha tem pavor de que esta medida trouxesse inflação.
Seja como for, diz a revistas, muitos esperam que o BCE não deixará de comprar títulos, citando um economista do Citygroup que afirma que a proibição de que o BCE empreste diretamente aos governos é pura idiotice. “É isso que os bancos centrais fazem”.

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