Proposta
de referendo coloca em xeque resgate da Grécia
O
Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa),
registrou baixa de 1,74%, aos 57.322 pontos, nesta terça-feira de fortes quedas
nos mercado globais, após o anúncio surpreendente do primeiro-ministro da
Grécia, George Papandreou, sobre a convocação de um referendo sobre o pacote de
ajuda ao país. O dólar comercial fechou em alta de 1,94%, a R$ 1,735 na compra
e R$ 1,736 na venda, após registrar alta de 3,46% na máxima da manhã. O dólar
turismo saltou 2,22% no Rio de Janeiro, sendo encontrado a R$ 1,84 nas casas de
câmbio e bancos.
As
bolsas da Europa registraram quedas de cerca de 5% e o Ibovespa chegou a cair
3,84% na mínima do dia. Rumores de que o referendo poderia ser engavetado, após
declarações de um integrante do partido governista grego à agência Dow Jones
Newswires, contribuíram para reduzir perdas no meio da tarde, mas um porta-voz
confirmou as intenções do governo pouco antes do fechamento dos pregões. Ainda
assim, na segunda e na terça-feira, a Bolsa praticamente apagou os ganhos de
quinta e sexta-feira passadas.
Um
resultado negativo num referendo na Grécia colocaria em xeque o plano europeu
apresentado após a reunião de líderes na semana passada. Segundo o governo
grego, o referendo ocorreria só em janeiro. Na próxima sexta-feira, Papandreou
tentará obter um voto de confiança no Parlamento. Integrantes do partido
governista pediram a renúncia do primeiro-ministro.
Como
reação à decisão da Grécia, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o
presidente da França, Nicolas Sarkozy, disseram que travariam conversas de
emergência sobre o socorro ao país com a União Europeia, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e os líderes da zona do euro na quarta-feira. Eles também
devem se encontrar com representantes do governo grego antes do encontro do
G-20 (grupo dos 20 países mais ricos) na quinta-feira, em Cannes, na França.
Segundo
Sarkozy, o pacote de resgate da Grécia é a única via possível para resolver a
crise da dívida do país. Ele afirmou que a ideia do referendo "surpreendeu
toda a Europa" e que as duas maiores economias do continente concordaram
em liderar as instituições europeias "para examinar as condições" sob
as quais agora o plano deve ser levado adiante.
"A
volatilidade está muito grande hoje. Rumores e a ação de Merkel e Sarkozy
reduziram as perdas, mas investidores já estavam receosos com a falta de
detalhes sobre o plano europeu", diz Luís Gustavo Pereira, da corretora Um
Investimentos.
Antes
dos rumores dos fins dos pregões nas Américas, os principais índices da Europa
desabaram. Em Londres, o FTSE 100 caiu 2,11%. Em Paris, o CAC 40 recuou 5,38%.
Em Frankfurt, o DAX tombou 5%. Em Madri, a queda foi de 4,19% no índice IBEX
35. Em Milão, o FTSE MIB desabou 6,80%.
Bancos
europeus, com grande exposição aos títulos da dívida grega, puxaram as baixas e
apagaram os ganhos de quinta e sexta-feira passadas nos dois pregões desta
semana. É o caso dos franceses BNP Paribas, Société Générale e Crédit Agricole
e do alemão Deutsche Bank.
"O
mercado subiu em outubro embalado pelas negociações sobre a Grécia e a
aprovação de um acordo por líderes da zona do euro. E agora, de repente, tudo
pode ir por água abaixo", explica Luciano Rostagno, estrategista-chefe do
banco WestLB do Brasil. "Os investidores temem o calote, o que colocaria
em risco a situação dos bancos europeus".
O
pessimismo de investidores na Bovespa seguiu o movimento nos Estados Unidos. Em
Wall Street, o Dow Jones (principal índice da Bolsa de Nova York) recuou 2,48%.
O S&P 500, que engloba as 500 principais empresas dos EUA, caiu 2,79%. O
Nasdaq, termômetro do setor de tecnologia, retrocedeu 2,89%.
Na
semana passada, os líderes da zona do euro concordaram em conceder a Atenas um
segundo pacote, de 130 bilhões de euros, e a anistia de 50% de sua dívida. O
governo grego quer colocar as medidas em consulta popular porque exigem um
programa de cortes de gastos bastante impopular, que já desencadeou uma onda de
protestos entre os gregos.
O
primeiro-ministro da Grécia se comprometeu a convocar o referendo em discurso a
parlamentares do dividido Partido do Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok)
na noite de segunda-feira, mas não falou em data específica para a votação.
Papandreou disse que precisava de maior apoio político para as medidas fiscais
e as reformas estruturais exigidas pelos credores internacionais.
"Temos
fé nos nossos cidadãos. Acreditamos no seu juízo e, portanto, na sua
decisão", disse Papandreou, após rejeitar pedido para antecipar as
eleições. "Todas as forças políticas do país devem apoiar as exigências do
pacote de resgate. Os cidadãos vão fazer o mesmo assim que tiverem
integralmente informados".
Setor
de commodities lidera queda
No
mercado doméstico, as ações de empresas produtoras de commodities
(matérias-primas com cotação internacional) e do setor de construção lideraram
as quedas. Na China, o índice dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês)
recuou para 50,4 em outubro, de 51,2 em setembro, abaixo das previsões. O nível
de atividade econômica chinesa impacta diretamente os preços das commodities e
empresas produtoras desses insumos têm grande peso na Bolsa brasileira.
OGX
Petróleo ON (ordinária, com voto) recuou 1,76%, a R$ 13,95. Vale PNA
(preferencial, sem voto) perdeu 0,98%, a R$ 40,40, enquanto Petrobras PN teve
queda de 0,89%, a R$ 21,13. Entre as construtoras, PDG ON caiu 3,30%, a R$
7,32. A maior queda no Ibovespa foi JBS ON, que recuou 8,33%, a R$ 4,73.
"As
construtoras subiram bem em outubro e investidores aproveitam para embolsar
lucros", explica o estrategista de varejo da corretora Ágora, José
Francisco Cataldo, completando que os papéis do setor de construção estão entre
os mais voláteis da Bolsa.
Dólar
em alta em todo o mundo
Com
a reviravolta provocada pelo anúncio do governo grego, o dólar se valoriza
fortemente os mercados de câmbio. O euro recuou 1,13% perante a moeda
americana, segundo a agência Bloomberg News.
No
mercado local, segundo o gerente de câmbio da corretora Icap Brasil, Ítalo
Abucater dos Santos, o movimento está de acordo com o dia de fuga de ativos de
risco. Com isso, os grandes compradores de dólar são os investidores
estrangeiros.
"A
preocupação dos investidores está voltada para a Europa", diz Santos.
José
Carlos Amado, operador de câmbio da corretora Renascença, chama atenção ainda
para a forte volatilidade no câmbio. Para ele, o nível em torno de R$ 1,75 (a
máxima foi de R$ 1,763) trouxe vendedores para o mercado e impediu valorização
maior.
á na
avaliação de Santos, da Icap Brasil, a euforia da semana passada foi exagerada,
baseada na crença de que havia coisas resolvidas na crise europeia, mas o plano
foi anunciado sem detalhes. Por isso, o otimismo de outubro, quando o Ibovespa
registrou alta mensal de 11,49% e o dólar comercial recuou 9,46%, pode ter sido
pontual.
Da
Agência O Globo
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