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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sem surpresa, BC corta Selic para 10,5% ao ano


Sem surpresa, BC corta Selic para 10,5% ao ano
Esta foi a 4ª redução consecutiva na taxa, desde agosto do ano passado. Novos cortes devem ocorrer
Brasília. Na primeira reunião do ano do Copom, comitê que define o rumo dos juros no país, os diretores do Banco Central reforçaram a sinalização de que o espaço para cortes na taxa Selic ao longo de 2012 diminuiu. Sem surpresas e em linha com o recado dado no último relatório de inflação, divulgado no final de dezembro, o BC anunciou ontem, queda de mais 0,5 ponto percentual na taxa que serve de referência para toda economia.
Foi a quarta redução consecutiva desde agosto de 2011 e levou a Selic a 10,5% ao ano. No comunicado, os diretores mantiveram a argumentação de que "um ajuste moderado na taxa básica de juros é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012".
Dúvidas
A maior dúvida do mercado é quantos novos cortes ainda poderão vir. Até o final do ano passado, o BC considerava que ainda havia espaço para quedas "moderadas" dos juros em 2012.
Na virada do ano, começou a mostrar preocupação com a inflação, sobretudo no segundo semestre de 2012, quando a economia deverá estar mais aquecida. Isso colocou em dúvida se os juros poderão chegar a um dígito no curto prazo. Nas projeções iniciais do mercado, a Selic poderia cair para 9,5% no meio do ano, ficando inalterada até dezembro.
Para o BC, a crise internacional deverá ter um forte impacto no crescimento de boa parte do mundo rico. O risco de importantes economias da Europa enfrentarem recessão ajuda a conter os preços aqui no Brasil. O crescimento brasileiro deverá ser sustentado pelo mercado interno, estimulado por crédito e consumo. Para a economista Zeina Latiff, com o cenário internacional ainda muito incerto, o BC deve "deixar a porta aberta" para novos cortes.
"Os riscos para inflação ainda não são tão elevados e o cenário internacional contribui para redução dos preços no Brasil", avalia. Por outro lado, ela diz que a economia brasileira não está tão recuperada. "O crédito vai crescer num ritmo mais lento e isso reduz a capacidade de as quedas de juros estimularem a economia", afirma, ressaltando que, com isso, podem ser necessários mais cortes.
Baixo impacto
A redução da taxa básica de juros, a Selic, em 0,5 p.p. (ponto percentual) terá um efeito pequeno nos juros das operações de crédito para consumidores e empresas, segundo análise da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).
Segundo a Anefac, este fato ocorre porque existe uma diferença "muito grande entre a taxa Selic e as taxas de juros cobradas aos consumidores que, na média da pessoa física atingem 114,84%, ao ano, provocando uma variação de mais de 900%, entre as duas pontas".
De acordo com as simulações feitas pela Anefac, a taxa média das operações para os consumidores, atualmente em 6,58% ao mês, deve cair apenas 0,04 p.p. (para 6,54%) com o corte anunciado ontem.
Rotativo
Entre as taxas para as pessoas físicas, os juros do cartão de crédito devem cair de 10,69% ao mês, para 10,65%.Para as empresas, a taxa média deve cair de 3,87% para 3,83% ao mês.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
A crise é que está ditando as taxas de juros
Essa redução já era esperada, seguindo uma trajetória de queda da taxa Selic que tende a continuar, podendo chegar a 10% e até a 9,5%, ao ano, dependendo do acirramento da crise econômica europeia. Quanto maior a crise, mais o Brasil terá condições de reduzir as taxas de juros, como forma de promover e estimular a economia interna. A crise é quem está ditando o fluxo das taxas de juros. Apesar de novo recuo nas taxas, não acredito que haja redução no volume de investimentos externos no Brasil, porque nossas taxas ainda são muitos superiores ás do mercado externo. Pelo contrário, deve estimular os investidores a tirar o dinheiro do banco e aplicar na economia real. O que não podemos esquecer é de manter o controle da inflação. O fato é que toda redução é bem vinda, porque os juros altos ainda consomem uma boa parcela da renda da população, sobretudo dos mais pobres que necessitam de crédito.
Varejo vê chance de recuperação
São Paulo. A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) avalia que o novo corte da Selic é importante para o varejo brasileiro, mas classifica que a redução foi "tímida". "O ciclo de baixas da Selic abre espaço para retomada do consumo interno mais forte, e, por consequência, a recuperação do varejo brasileiro", cita o texto.
Apesar da comemoração, a CNDL afirma que o corte dos juros poderia ter sido mais ousado. "Apostávamos em uma queda de 0,75 ponto porcentual, até porque existe atualmente uma necessidade urgente de aquecer o mercado interno, já que as vendas de fim de ano mostraram um desempenho significativamente tímido em 2011", destacou o presidente da CNDL, Roque Pellizzaro Júnior.
´Locomotiva´
"Em 2012, o comércio será a locomotiva do crescimento econômico, avançando entre 4% e 4,5%, algo como um ponto ou um ponto e meio porcentual acima do PIB (Produto Interno Bruto)", prevê. Segundo o dirigente, o corte demonstra que o Banco Central "está trabalhando para colar a política monetária à fiscal, combinando reforço no crédito com desonerações de tributos para o consumo". Para o presidente da CNDL, "uma ação mais ousada por parte do Banco Central neste momento em que há real risco de contágio da economia brasileira em função da fraca atividade na Europa e Estados Unidos poderia sinalizar um claro recado ao mercado de que o Brasil está atento aos movimentos externos, assim como entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial".
"O Brasil tem tudo para se manter distante do epicentro da crise, mas não há como menosprezar o recado do FMI, que sinalizou com mais um resgate à Europa, de quase US$ 500 bilhões, e o alerta do Banco Mundial, que classificou como ´risco real´ a possibilidade de que as turbulências externas ocasionem uma crise global similar à que ocorreu em 2008", avalia o dirigente.
Para CNI, juro segue acima do padrão internacional
São Paulo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou que o novo corte de 0,50 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, anunciado ontem pelo Copom, veio em linha com as avaliações da entidade sobre o desaquecimento da atividade econômica e a tendência de convergência da inflação para o centro da meta, de 4,5%.
No entanto, a CNI destaca que o corte "ainda mantém os juros brasileiros acima dos padrões internacionais, evidenciando a existência de espaço para novas reduções".
Continuidade
"O ambiente internacional de dificuldades das economias europeias continua gerando incertezas e restrição de crédito, o que justifica a atenção do Banco Central brasileiro com a liquidez e o custo do dinheiro no País. A CNI considera ser necessário dar continuidade ao ciclo de redução dos juros, de modo a atenuar os efeitos da baixa atividade mundial na economia brasileira e evitar novo movimento de valorização cambial", diz a nota da CNI. A entidade defende rigor na execução do orçamento de 2012.

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