Antonio Machado
Governos passam, as férias do colunista acabaram, um mês se foi entre a saída de Lula e a posse da presidente Dilma Rousseff, e o debate - tal e qual desde a reforma monetária do real -, continua o mesmo. É a questão fiscal que teimosamente não sai de cena.
Ela estica o estrelato do Banco Central, dos juros altos, do real forte e da inflação, apesar disso tudo, a morder os calcanhares de um governo baratinado, como os anteriores, entre o crescimento com distribuição de renda e as metas da estabilidade econômica.
É o mesmo disco há quase duas décadas. O BC regido por Alexandre Tombini mantém tal partitura. Ele estreou como maestro da política monetária, subindo de 10,75% ao ano a 11,25% os decibéis da Selic, depois de já ter restringido o crédito ao consumo, além de criar novos embaraços, sem sucesso até agora, para o dinheiro que aporta no país atrás dos juros generosos dos papéis da dívida pública.
A demanda robusta absorve as altas de preços típicas de aumentos da renda, e não, como já não insiste tanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, devidas unicamente ao choque dos alimentos.
Ele há, e é um fator relevante para a renitência da inflação. Mas não conta toda a história. O crédito ainda aquecido, desemprego em baixa histórica de 5,3% no fim de 2010 e o perfil do gasto público distante de uma política que priorize a produção industrial sobre o consumo não resultante dos investimentos e das ações de proteção social tornam o crescimento brasileiro menos objetivo que o modelo chinês. Ou o dos EUA no início do século 20 e depois da 2ª Guerra.
A expectativa de variação musical pelo governo Dilma ainda não se confirmou. Depende do que ela fizer com o fiscal, e não há muito a fazer - não frente ao apetite fisiológico de sua aliança política, que repete a de Lula, aguçado pela falta de compromissos com algum projeto consensual de crescimento de longo prazo, que nunca houve.
O crescimento vai na onda internacional, que espera do Brasil não muito mais que alimentos, minérios e abertura para importações e o ingresso de fundos financeiros ociosos. O país recebe dólares não bem porque os investidores estrangeiros querem produzir aqui, mas porque os juros são altos em relação aos praticados lá fora. E, da parcela de investimentos diretos, o grosso visa o mercado interno.
Estas são as questões de fundo que solapam a ascensão econômica e social do Brasil: um modelo econômico dependente. Antes, de fundos externos para fechar as contas, e com risco de voltar a ser assim. E, depois das reformas do real e o saneamento fiscal do Estado, da demanda global por commodities. Nossa autonomia continua estreita.
Ociosidade em Davos
É preciso atentar para as transformações já em curso no mundo - e ter cautela com o pessimismo imobilizador dos economistas, como se ouve no fórum de Davos, a cidadezinha nos Alpes suíços que hospeda uma vez por ano os ricos e poderosos globais. Eles vão lá, como o notório Nouriel Roubini, para falar de riscos, que é o seu modo de chamar a atenção, não das soluções que já surgem em meio à crise.
É perda de tempo ouvi-los, como o alerta do FMI (Fundo Monetário Internacional), divulgado em tempo de repercutir em Davos, sobre a deterioração fiscal nos EUA, Japão, e com o Brasil citado no meio. O FMI praticamente descarta a realização da meta “da ordem de 3% do PIB” do superávit primário este ano pelo governo Dilma. E daí?
Chamamento de Obama
O principal o FMI não diz sobre o Brasil, tanto quanto também não dizem Roubini e outros sobre os EUA e a Europa.
O déficit fiscal é danoso se resultar de gastos públicos improdutivos, como, nos EUA, para resgatar a insolvência bancária, sustentar seu enorme aparato bélico e subsidiar a indústria de petróleo, três itens mencionados pelo presidente Barack Obama em sua prestação de conta esta semana sobre o estado da nação. Ele propôs a retomada da competitividade.
Brasil copia os EUA
No Brasil, é o que também falta. E lá, como cá, a questão fiscal, não bem os déficits, é o obstáculo. Os EUA se desenvolveram com a agricultura, matérias-primas e produção industrial sempre andando na frente do consumo até o advento do famigerado consenso entre os empresários americanos do tal outsourcing – a migração de fábricas para países de mão-de-obra barata, especialmente a China.
Resumo: os EUA viraram uma economia de serviços, sem indústria de consumo, com um sistema bancário hipertrofiado e um setor agrícola muito forte. Sem ter alcançado o nível de desenvolvimento dos EUA, vivemos dilema igual. Com o agravante da falta de infraestrutura.
O time para avançar
Apesar das falsetas de uma coalizão política de ocasião, plena de oportunistas descompromissados com o sucesso do governo, e de um ministério inchado, disfuncional, assim moldado desde os tempos de Lula para acomodar tais interesses e afagar o PT, Dilma dispõe dos quadros certos para promover a transformação redentora do país.
Os ministros de Ciências e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, além do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, têm a visão sobre o que fazer – e preocupação com a estabilidade da economia.
Se forem ouvidos e liberados por Dilma a atuar em parceria com o colega Mantega, eles são capazes de formular uma nova direção ao governo. Depende da capacidade de Dilma entusiasmar os aliados e da dinâmica global. A ver.
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