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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Relatório do BC reinsere o risco de inflação e sinaliza o aumento da Selic “no curto prazo”

Dilma não terá vida fácil ao começar a governar, nem poderá culpar o antecessor, como Lula fez com FH. Há obstáculos que vão exigir ações desagradáveis
Enquanto o presidente Lula recolhe os aplausos em seu desfile de despedida, cimentando a percepção de que o governo com ele só fez as coisas certas e boas, como a inflação estável e os aumentos da renda e do emprego, Dilma Rousseff mantém um silêncio obsequioso.
 Ainda não disse a que veio e, quando disser, terá dificuldades em conciliar, pelo menos no início de gestão, a política econômica a que será forçada a implantar – e em consequência também a social - com o discurso triunfalista de Lula, segundo o qual está deixando tudo arrumado para outro salto do crescimento. Não é bem assim.
 Mas Lula não bate em prego sem estopa. Ele já disse que vai estar “de olho” nela. Dilma não terá vida fácil ao começar a governar e nem poderá alegar que a herança é maldita, como Lula disse de FH.
 Há obstáculos a ultrapassar, que vão exigir ações desagradáveis, envolvendo o adiamento de gasto público, a contenção de crédito ao consumo, que já começou, e aumento de juros, conforme o chamado à realidade do Relatório de Inflação (RI) - um nome minimalista para o mais importante documento sobre a situação efetiva da economia.
 De responsabilidade do Banco Central e periodicidade trimestral, o RI orienta as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) em relação à condução dos juros básicos. Ao contrário do tom dúbio da ata do último Copom, quando a Selic foi mantida em 10,75%/ano, a peça do BC não dá margem a duvidas sobre o que vem pela frente.
 “O balanço de riscos atual se mostra bem menos favorável à concretização de um cenário benigno, no qual a inflação seguiria consistente com a trajetória de metas”, diz o RI. Traduzindo: a inflação, como está, não virá para o centro da meta anual de 4,5% sem novos aumentos da Selic. Nesse panorama, o crescimento do PIB, estimado em 7,3% em 2010, cairá, segundo o BC, para 4,5% em 2011.
 Esse relatório já traz a liderança de Alexandre Tombini, sucessor de Henrique Meirelles no comando do BC, e é cristalino como água. O BC avalia o horizonte pela lupa de dois cenários, um estático, que chama de referência, e o outro de mercado, mais prospectivo.
Cenários da inflação
 Pelo cenário de referência, no qual a Selic fica estável no nível atual de 10,75% ao ano e o câmbio em R$ 1,70, a inflação projetada para 2011 vai a 5%. Só no primeiro trimestre de 2012 a variação em doze meses do IPCA voltaria à meta, fechando o ano em 4,8%.
 No cenário de mercado, publicado no boletim semanal Focus, fruto das consultas do BC a uma centena de fontes, as premissas são de aumento da taxa Selic até 12,25% no final de 2011, começando já em janeiro, recuando para pouco menos de 11% ao fim de 2012. O dólar iria entre tais momentos de R$ 1,75 a R$ 1,80. Nesse figurino, a inflação fecha 2011 em 4,8%. E converge à meta ao final de 2012.
Os riscos são outros
 Em princípio, dada a temperatura atual da economia - francamente expansionista -, o desemprego em nível recorde de baixa (5,7%, na medida do IBGE para novembro), os preços das commodities agrícolas ascendentes no mundo e o desarranjo da política fiscal legada pelo governo Lula, tais projeções só impressionam os assustadiços.
 Com o resquício de indexação existente, o crédito fervendo e mais os milhões de novos consumidores oriundos do pé da pirâmide social famintos por bens de consumo, como TV de tela plana e geladeira, o estranho é a inflação reagir tão bem às pressões de demanda.
 Mas a economia é feita de múltiplos dutos, com a inflação refletindo não só choques de oferta e pressões de demanda, mas a síntese, expressa pela meta, dos fatores que podem desajustar a estabilidade mais adiante.
O câmbio é a ameaça
 Como destaca o BC em seu relatório, “no regime de metas para a inflação, desvios em relação à meta, na magnitude dos implícitos nessas projeções, sugerem necessidade de implementação, no curto prazo, de ajuste na taxa básica de juros, de forma a conter o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia, bem como de reforçar a ancoragem das expectativas de inflação”. Não é curto e grosso, mas é direto.
 A Selic vai subir. Se no Copom de janeiro ou seguinte, não disse, nem o BC poderia fazê-lo, mas as chances de estabilidade ao longo de 2011 - como deseja o ministro Guido Mantega - se estreitaram.
 Onde é que pega? Na taxa cambial. Real “forte” induz importação, o que ajuda o controle da inflação, e ameaça a produção nacional. Sem a muleta cambial, só há juros e ajuste fiscal para a inflação voltar à meta. Se com mais juro ou menos gasto, depende de Dilma.
A relação juros-dólar
 O nível de juros que acomoda a inflação corrente à meta, no país, é superior ao vigente nos EUA e Europa, estimulando o ingresso de fundos que depreciam o valor do dólar mais do que já está lá fora.
 O real apreciado é o que permite a relativa calmaria da inflação com juros, embora absurdos, menores do que seriam sem o anteparo das importações. O economista Rubens Cysne, da FGV, argumenta que há uma sutileza mal compreendida.
 Com o câmbio controlado, gastos fiscais excessivos são punidos por meio das expectativas quanto à taxa cambial. Já no câmbio flutuante, o aumento dos gastos, ainda que cobertos com impostos (mas, sobretudo, quando não cobertos por maiores receitas), precisam como contrapartida para a inflação não subir de menores exportações e maiores importações. Assim estamos.

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