Em 9 de novembro de 1989, o governo da Alemanha Oriental abriu o Muro de Berlim, derrubado por uma multidão, e ao mesmo tempo anunciou sua intenção de realizar eleições livres, democráticas e secretas. Em outubro de 1990, decidiu-se a unificação germânica e, em seguida, a autonomia da Europa Oriental. Em novembro de 1990, a União Soviética subscreveu a Carta de Paris e comprometeu-se a adotar o modelo de Estado-nação parlamentar. Em 25 de dezembro de 1991, a União Soviética dissolveu-se formalmente.
Esses extraordinários acontecimentos desacreditaram o comunismo. O Estado democrático, capitalista e parlamentar derrotou seus adversários ideológicos. Em 2001, cerca de 120 dos 192 Estados do planeta contavam com governos democráticos.
A queda do Muro de Berlim foi o grande teste internacional pelo qual passou o processo de mudanças impulsionado pelo então líder soviético, Mikhail Gorbachov, que estava decidido a romper com décadas de confrontos com o Ocidente.
Eleito secretário-geral do Partido Comunista em 1985, Mikhail Gorbachev tentou reestruturar a economia doméstica para tornar o modelo socialista mais competitivo em termos internacionais ("perestroika": reestruturação). Gorbachev ampliou a agenda de mudanças introduzindo reformas políticas ("glasnost": transparência ou abertura).
Apenas uma economia intensiva e de rápido desenvolvimento será capaz de assegurar o fortalecimento da posição do país na arena internacional, permitindo-lhe ingressar no novo milênio como grande e próspera potência, alertava Gorbachev antes mesmo de sua eleição como secretário-geral. Uma vez eleito, ele avaliou: o destino do país e o lugar do socialismo no mundo dependiam da consecução dos objetivos econômicos.
As reformas econômicas de Gorbachev consistiram em tentativas de implantar práticas de mercado na economia soviética de planejamento centralizado. Dentre outras medidas, introduziram-se incentivos ao lucro e condenaram-se as metas de produção. Mas as reformas continham medidas contraditórias e as práticas de mercado, adotadas parcialmente, não exerceram grandes efeitos ou tiveram um impacto perverso. Em 1989, era senso comum o reconhecimento do fracasso das reformas, houve escassez de alimentos e o governo perdeu o controle da economia.
No Estado-nação, nasceu o antagonismo entre o comunismo e o capitalismo. "Vencerá o sistema garantidor de melhor vida para as pessoas", disse Nikita Khruschchev, secretário-geral do Partido Comunista soviético (1953 - 1964).
Os EUA, para vencer o comunismo, resolveram contê-lo dentro de suas fronteiras, impedindo o enriquecimento do sistema pela conquista de novas sociedades. Uma vez administrada a contenção, o sistema socialista ruiria por um processo próprio de deterioração crescente ou empobrecimento contínuo.
Apesar dos avanços da "nova mentalidade" proclamada por Gorbachov, para muitos era inacreditável que o Kremlin permitiria que seus antigos aliados atuassem "à sua maneira", como diz a famosa canção de Frank Sinatra, e abriria mão da "soberania limitada" que a hoje extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) impôs a sangue e fogo em Budapeste (1956) e em Praga (1968).
Esta mudança era ainda menos crível porque aliados da República Federal da Alemanha (RFA, Alemanha Ocidental), como a França e o Reino Unido, se opunham a uma possível reunificação com a República Democrática Alemã (RDA, Alemanha Oriental).
Nos quatro anos que antecederam a queda do muro, as relações da Rússia com a Alemanha Oriental se complicaram muito.
Enquanto a "perestroika" (reforma política) promovida por Gorbachov na URSS ia transformando os países do bloco comunista, dois líderes socialistas, o da RDA, Erich Honecker, e o da Romênia, Nicolae Ceaucescu, resistiam com unhas e dentes à qualquer tentativa de mudança.
"As ameaças espreitam aqueles que não se adaptam às exigências da vida, enquanto aqueles que sentem os impulsos da sociedade conseguem enfrentar sem temor as dificuldades", declarou Gorbachov em 7 de outubro de 1989, nos 40 anos da RDA.
O tradutor alemão do líder soviético foi ainda mais categórico: "A vida pune quem tarda".
Dez dias depois, Honecker foi destituído do cargo. Em 9 de novembro, o muro caiu.
O então ministro de Assuntos Exteriores soviético, Eduard Shevardnadze, disse em entrevista à Agência Efe que uma das principais preocupações de Gorbachov à época era com os ânimos dos cerca de meio milhão de soldados do Exército Soviético posicionados na Alemanha Oriental.
Gorbachov teve que viajar pessoalmente à RDA para evitar que as tropas saíssem às ruas do país.
"Fomos lá e Gorbachov deu ordens para que não interviessem. Se não tivéssemos viajado, o Exército poderia ter intervindo", o que, segundo Shevardnadze, "poderia ter gerado uma nova guerra mundial".
Também na cúpula soviética, admitiu o ex-ministro, havia vários líderes que eram contra a reunificação da Alemanha, sobretudo depois que "mais de 20 milhões de soviéticos sacrificaram suas vidas" na Segunda Guerra Mundial.
Os passos dados por Gorbachov permitiram que, em fevereiro de 1990, Estados Unidos e URSS se transformassem nos promotores da Conferência 2+4, em que as duas Alemanhas e os quatro países vencedores da Segunda Guerra (URSS, Estados Unidos, Reino Unido e França) discutiram a reunificação.
Até hoje, muitos não conseguem perdoar Gorbachov pela retirada das tropas da Alemanha e pela desintegração do bloco comunista, hoje incorporado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que era impensável há 20 anos.
À época, o departamento de análise do Ministério da Defesa da Alemanha chegou a elaborar um plano que previa a permanência das tropas soviéticas em território alemão depois da reunificação e a substituição da Otan pela Otae, organização de defesa que reuniria EUA, URSS e outros países europeus.
Mas, em julho de 1990, reunidos na residência presidencial de Arjyz (no Cáucaso Norte), Gorbachov e Shevardnadze telefonaram para o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, e disseram a ele que a URSS não era contra o ingresso de toda a Alemanha na Otan.
Os dois também disseram a Kohl que retirariam as tropas soviéticas do território alemão se o Exército da Alemanha mantivesse seu efetivo em 240.000 soldados.
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